terça-feira, 24 de agosto de 2010

Calculadamente (im)previsível ...

Ela gostava de imaginar os próprios pensamentos. Os via primeiramente como círculos concêntricos. Depois achou conveniente enxergá-los como linhas paralelas multicoloridas.
Haviam muitos pensamentos ao mesmo tempo naquela mente dilacerada. Alguns curtos e amarelos, outros mais longos verdes e azuis. Havia ainda um emaranhado deles que se cruzavam e entrelaçavam tantas vezes que até para ela era difícil acompanhar.
Seriam pensamentos lindos se não fossem imediatamente mortos por outros escuros e sombrios, como flechadas.
Ela sabia, previa e sentia o que estava para acontecer brevemente.
Seus pensamentos acompanhavam agora o ritmo que seu coração impunha. As linhas obedeciam a ondas, perdidas naquela imensidão sombria, ora fortes e constantes, ora descompassadas.
Quase como um suspiro, um único pensamento parecia existir dentro dela.
Lembrou das palavras que dissera à namorada. Aquele pensamento fugiu de sua mente e percorreu o corpo todo, como se tivesse vida própria, e percorreu cada uma de suas células, quente a aconchegante. A cor dele, ela não soube definir, por isso até hoje ela pensa que ele era branco. Repleto de luz. Branco, a mistura de todos os espectros.
Branco foi também a cor que ela atribuiu à mulher que amava.
Via no momento pessoas azuis, verdes, amarelas, abóboras, turquesas e liláses.
Mantinha uma relação tênue com as cores. Tão tênue que ainda não tinha uma própria cor.
Via-se como um fantasma. Transparente. Translúcida. Não sabia se aquilo poderia ser uma cor, mas era como ela se via, em seu íntimo, perfeitamente inotável.
Gostaria também de ser branca. Como uma tela que apenas espera os carinhos de um pincel.
Ela se refazia todos os dias. Se reinventava. Fugia do comum, do normal. Tinha a cada dia uma cor, um perfume, um espectro novo. Assim ela se fazia.
Calculadamente (im)previsível ...

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