sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Pesadelos - I

Ela estava lá parada. Tinha apenas 15 minutos para chegar em um lugar que ela não sabia onde ficava. Olhava o relógio, tamborilava os dedos, roía os dedos.
O trem chegou, mas parecia estranho dessa vez. Ao seu lado sentou-se seu melhor amigo nas duas primeiras cadeiras do vagão. Cumprimentos e "olás" forçados. Ela estava nervosa e atrasada, mas sabia que havia algo errado daquela vez. O trem partiu aos solavancos, mais rápido que o normal. Todos fecharam os olhos, derrepente estavam à centímetros dos trilhos e no escuro. Todo o metal e o vidro havia sumido. Só os acentos dos quais não conseguiam se levantar, e nem se encorajariam a tal coisa.
Um túnel escuro e aparovante à frente. Teias de aranha que tocavam em seu rosto. Ela odiava aranhas. Disse pro seu amigo que estava ao lado para proteger o rosto com os braços. Ela conseguia enxergar apenas algumas luzes bruxuleantes ao redor, enquanto o trem fazia curvas e caía, subia e andava cada vez mais rápido.
Apenas uma reta e velocidade. A voz débil anunciou: "O passageiro da poltrona 14 deve desembarcar imediatamente". O coitado estava desesperado, olhava para os lados e para a plataforma e se perguntava como desembarcaria àquela velocidade.
Ela sabia o que aquilo significava no seu íntimo. Ele morreria, sem dúvidas. Achou uma pena, era um garoto bonito.
Dois segundos mais tarde um portão de metal apareceu à frente. Num impulso ela esticou as pernas e eles atravessaram o metal sem maiores problemas. A não ser o desgraçado da poltrona 14 que foi decapitado.
Ela sabia que eram testes. Ela deveria protegê-los, então seria a líder daquilo. Mas por quê?
Sentiu pena da garota da cadeira 13, ela gritava horrorizada coberta de sangue com um cadáver sem cabeça ao seu lado. Aquilo a irritava profundamente.
"Se você quiser continuar viva é melhor calar a boca vadia!"
A velocidade parecia ter ficado constante e pular para uma das plataformas era impossível.
Mais uma barreira. Desta vez de madeira. Ela começou a soquear com todas as forças a parede assim que o "trem" parou bruscamente. O amigo ao seu lado fez o mesmo. Assim que abriram um buraco grande o suficiente puderam prosseguir.
Agora andavam devagar, parecia que era necessário observar o lugar mal iluminado e entulhado de coisas. Mandou que apanhassem qualquer coisa que parecesse útil.
Barras de ferro e pés de cabra pareciam a arma mais poderosa que tinham.
Não haviam mais obstáculos à medida que prosseguiam. Apenas cenas de horror. A maioria das garotas fechavam os olhos. Pessoas penduradas pela pele em ganchos à cantos, cadáveres aos pedaços iluminados por tochas nas plataformas.
Olhou para trás e as cadeiras 5, 8 e 13 haviam desaparecido. Pensou que talvez tivessem sido engolidos pelo próprio medo.
Não tinham coragem de pensar no que estava acontecendo, muito menos falar o que quer que fosse.
Caíram em uma fenda que parecia não ter fim. Muitos se machucaram na queda, e ela notou que eram apenas 8 lá em baixo agora. Era um jogo de sobrevivência. Uma voz firme e grave anunciou para que jogassem os celulares e qualquer outro eletrônico dentro de uma caixa em um canto.
Foram encaminhados à uma sala com oito cadeiras pré-determinadas. Roupas limpas e um quarto os esperavam. Foram proibidos de fazer perguntas e de se dirigir a qualquer um lá dentro.
No que parecia ser o dia seguinte, tiveram que responder a perguntas sobre eles e a questões de conhecimento. Aquilo parecia importante. Cada um deles tentava demonstrar ao máximo o que sabia a respeito de determinada área. E cada um deles era especialista em algo ali dentro.
Perceberam que tinham de ficar juntos, ou morreriam. Planos de fuga eram descartados a cada minuto, visto que mesmo que se livrassem daqueles guardas seria impossível lembrar o caminho de volta. Era realmente um pesadelo.
O perfil de cada um era escolhido, e de alguma forma eram levados àquele lugar. Ela pensou que havia se atrasado aquele dia. E o seu amigo disse que recebeu uma ligação dela para se encontrarem na estação àquela hora.
Ela começou a prestar atenção em inscrições nas paredes e no chão. Ela já havia estudado alguns daqueles caracteres, e tinha um conhecimento amplo em línguas. Cada objeto, cada pedaço do lugar estava repleto de códigos e sistemas secretos.
No quarto de paredes de pedras empoeiradas que lhe foi destinado, além dos muitos livros, plantas e desenhos, uma cadeira e uma mesa de madeira robusta e escura, encontrou uma pedra que seguindo uma sequência de movimentos abria um compartimento secreto. Guardou lá a carta que levava no bolso.
Apenas três dias se haviam passado, ela contava com a luz que entrava no grande salão ao meio dia, já que noções de tempo foram completamente perdidas.
Estavam perdendo também a razão. Alice, uma garota magricela com mechas vermelhas no cabelo, falava delirando que devia descobrir como Merlin entrou no inferno sem ser visto por Hades. Aquilo era loucura.
Sua raiva era tanta dentro daquele lugar, sem ter nenhum contato com o resto do mundo, embora essa clausura fosse o que ela desejava lá em cima.
Estavam sendo drogados por aquele lugar. Ela estava arrancando pedaços da própria pele com os dentes.
Não aguentava mais o frio e a loucura. Quando seus dentes cravaram-se no braço do seu amigo arrancando um naco de carne, ela sentiu o gosto doce do sangue em sua boca.
Ouviu então a música assustadora. Abriu os olhos, seu celular estava tocando. Ela estava em sua cama, eram 8 horas da manhã. Estava segura.
Pelo menos até a próxima noite.

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